
A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) realizou o 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS) em Manaus (AM), de 16 a 19 de setembro, oferecendo uma programação pré-evento nos dois dias de antecedência. Esta edição, que sucede à última de 2023, aborda o tema “Interculturalidade, Ambiente, Saúde: os desafios do século XXI para uma vida em conexão com os territórios”, que incentiva o debate acerca de uma produção de conhecimento que incorpore a diversidade étnico-cultural e territorial e promova a integração entre a saúde, o meio ambiente e a cultura, considerando, principalmente, o contexto amazônico. A discussão foi orientada por problemas sociais e sanitários concretos e estimulou inovações sociais e tecnológicas destinadas ao fortalecimento do SUS.
A Universidade do Estado do Amazonas (UEA), o Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia) e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) disponibilizaram seus espaços para receber as atividades do Congresso. A escolha da região norte como sede foi feita com o intuito de descentralizar geograficamente os debates científicos e reconhecer epistemologias, experiências e práticas de cuidado oriundas de territórios historicamente marginalizados. Longe de ser periferia da produção científica, o estado afirma-se como território estratégico de formulação teórica, tecnológica, metodológica e política, oferecendo modos de vida que articulam ambiente, saúde e território de maneira indissociável, diferente das ideologias predominantemente reproduzidas pelas grandes estruturas do poder capitalista.
Entre as conselheiras e os conselheiros do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais (CES-MG) que participaram do evento, estiveram Adão Cândido (FADEMG), Aleteia D’Alcântara (FADEMG), Elisa Paschoal (SES), Erli Rodrigues (MORHAN), Gustavo Pamplona (FHEMIG), Julimar de Souza (CNBB), Leida Maria (FMSM), Lourdes Machado (PSINDMG), presidenta do CES-MG, Marília Aparecida (Federassantas), Rilke Públio (CRFMG) e Sandra Maria (SintsprevMG).
14/09 – Segunda-feira
A primeira atividade da programação pré-congresso foi o Fórum de Coordenadores de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Este foi o único evento da segunda-feira e pautou o desenvolvimento do planejamento estratégico do Fórum, além de discussões acerca da Avaliação Quadrienal da Pós-graduação brasileira. O grupo instituído pela ABRASCO tem como objetivo promover a reflexão e o compartilhamento de experiências e demandas relativas à formação de profissionais da área de saúde. Constitui um espaço de debates acerca do ecossistema da ciência, tecnologia, educação e saúde no Brasil, assim como um lócus de resistência do campo para proteção e promoção do ensino em saúde e defesa do SUS.
15/09 – Terça-feira
Na terça-feira, o segundo dia da programação pré-congresso, o curso “Economia da Saúde, Territórios e Gestão do SUS: O Papel dos Núcleos de Economia da Saúde e da Rede Ecos” foi destaque. A economia da saúde é um campo estratégico de estudo que analisa o planejamento, a alocação eficiente de recursos e a avaliação de políticas públicas frente à crescente complexidade dos sistemas de saúde, intensificada por desafios ambientais, territoriais e sociais. Em consonância com o tema do congresso, a capacitação explorou como ferramentas dessa área de pesquisa podem contribuir para a compreensão das desigualdades regionais, dos impactos socioambientais na saúde e da necessidade de decisões baseadas em evidências sensíveis às especificidades territoriais.
O secretário-geral do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais (CES-MG), Erli Rodrigues, esteve presente e considerou a oficina de grande importância, principalmente para quem atua na Câmara Técnica de Orçamento e Finanças (CTOF). Segundo o conselheiro, o Núcleo de Economia da Saúde possibilita um olhar qualitativo sobre o gasto e ajuda a averiguar a viabilidade ou não de uma ação de saúde pública planejada por um município. Além disso, ele ainda ressalta a orientação fornecida na compra de insumos e medicamentos para o serviço de saúde:
“O Núcleo de Economia da Saúde, por meio de pesquisas em busca dos melhores preços e da maior qualidade dos produtos, pode contribuir e muito para investimentos mais eficazes e um planejamento financeiro refinado no que tange à saúde pública”, disse o secretário-geral.
A oficina “Literacia em Saúde, Educação Midiática e Educação em Informação para Promoção da Confiança na Ciência e Enfrentamento ao Negacionismo Científico”, realizada também na terça-feira, reuniu as pessoas convidadas interessadas em discutir e formular estratégias para combater a desinformação científica, o negacionismo científico e o discurso anticiência na mídia. O conselheiro Julimar de Souza apontou o exercício como enriquecedor:
“Foi uma experiência de suma importância! Foi ensinada a maneira correta de averiguar e transmitir informações, principalmente diante da crise causada pelo negacionismo”, declarou.
A conselheira Marília Aparecida enalteceu o fórum pré-congresso “Redes de Formação em Saúde Digital no SUS: Articulação entre Ensino, Serviço e Comunidade”. Sua ementa registrava a intenção de reunir representantes de diversos setores para debater estratégias de formação em saúde digital no SUS, tendo em vista a construção de redes interinstitucionais de aprendizagem capazes de integrar ensino, serviço, pesquisa e participação social.
“Ficou evidente na fala dos palestrantes que a transformação digital no SUS amplia as possibilidades de acesso à informação, comunicação e melhoria dos processos de trabalho, mas exige profissionais preparados para utilizar as tecnologias de forma crítica, ética e segura. Nesse sentido, a formação em saúde digital deve integrar ensino, serviço e comunidade, considerando as necessidades de cada território e fortalecendo essa união por meio da colaboração, troca de experiências e educação permanente.”, frisou Marília.
16/09 – Quarta-feira
Na manhã de quarta-feira, o último dia com práticas do circuito pré-congresso, a oficina “Desinformação em Saúde: Prevenir e Enfrentar” propiciou uma conversa profícua sobre a comunicação pública. O agravamento da desinformação na era digital após a pandemia da covid-19 e seu impacto na credibilidade dos profissionais de saúde e do SUS foi o tema central de reflexão, com o enfoque para os desafios trazidos pelas plataformas digitais e pelas inteligências artificiais generativas. A conselheira Elisa Paschoal acompanhou a experiência e a classificou como gratificante:
“As discussões sobre como combater a desinformação e a infodemia na saúde, pensando em caminhos para melhorar a comunicação pública hoje em dia, foram um ponto alto do Congresso. Todo o evento proporcionou dias de trocas e aprendizados focados no SUS e nos cenários atuais da saúde. Volto para Minas Gerais com novos conhecimentos e com um novo fôlego para fortalecer a saúde pública no nosso estado”, comentou.
17/09 – Quinta-feira
Na quinta-feira, a mesa-redonda “Os Condenados da Terra – Política de Drogas, Violências Interseccionais e as Comunidades Terapêuticas” foi destacada pela conselheira Leida Maria. Em sua fala, ela afirma:
“Os expositores da mesa-redonda foram assertivos na defesa do SUS, da reforma psiquiátrica e no reconhecimento da relevância do controle social. Eu pude ressaltar o posicionamento da Comissão Estadual da Reforma Psiquiátrica em relação ao Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais, relatando a reprovação do último Relatório de Gestão (RAG) por não cumprir com as metas pré-estabelecidas”.
18/09 – Sexta-feira
A agenda de sexta-feira contou com o programa “Análise crítica em tempos de saúde digital e Inteligência Artificial”, que contemplou os eixos: aplicativos de saúde; autoritarismo no ambiente digital; escuta artificial, psicoterapia e IA; biomedicina na era da medicina de precisão e da inteligência artificial; os limites da inteligência artificial na fisioterapia; saúde digital na reconfiguração da formação de profissionais de saúde no Brasil; e impactos no papel enunciativo do jornalismo no twitter (x) no início da vacinação contra covid-19 no Brasil. Gustavo Pamplona participou e elogiou a atividade. De acordo com o conselheiro, houve a interseção entre saúde digital, governança tecnológica e equidade social no SUS, voltada à análise crítica dos impactos da IA, das aplicações algorítmicas, da telessaúde e da digitalização sobre o acesso aos serviços e sobre o campo da saúde mental.
“Todo o congresso foi ótimo para articular a inovação tecnológica aos preceitos da Reforma Sanitária e da soberania científica nacional, o percurso abrangeu o desenvolvimento de instrumentos operacionais para mensuração e redução de iniquidades na atenção primária à saúde, bem como a valorização da comunicação comunitária para o fortalecimento da participação social”, afirmou.
19/09 – Sábado
Sábado foi o último dia do 10º CSHS, fechando a programação com um grande debate sobre “Ambiente e Saúde: Vida nos Territórios em Tempos de Emergência Climática”. A presidenta do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais, Lourdes Machado, elogiou a organização como um todo e reforçou a importância de um evento que nem aquele, que proporcionou muitos ensinamentos que serão aplicados na saúde pública do estado.
Ela destacou, especialmente, o aprendizado sobre como uma gestão pode utilizar a tecnologia de forma que aproxime territórios e estenda o acesso à saúde às regiões remotas. Segunda a presidenta, a telessaúde é uma ferramenta poderosa para enfrentar as distâncias e desigualdades de acesso, principalmente em estados como o próprio Amazonas, com suas grandes dimensões territoriais.
O conselheiro Adão Cândido enalteceu as oficinas que trataram da “educação popular”, uma abordagem na área da saúde que prioriza o diálogo e o respeito à cultura de cada comunidade. Já a conselheira Sandra Maria aproveitou a oportunidade para comparecer aos programas que discutiram a saúde mental do trabalhador. Segundo ela, as discussões demonstraram que as condições de trabalho, a organização dos processos produtivos e as situações de vulnerabilidade social e ambiental podem interferir diretamente no processo saúde-doença. Sandra também diz que foram abordados os impactos da exposição aos agrotóxicos, considerando a contaminação do solo e dos recursos ambientais e seus possíveis efeitos sobre a saúde das populações expostas, incluindo o desenvolvimento de doenças graves, como determinados tipos de câncer.
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