O fim de um holocausto

“A liberdade escreve o ponto final”. Assim, sem meneios, sem “poréns”. A liberdade é o ponto final. De uma história de 115 anos que nunca deveria ter acontecido. História do antigo “Hospital Colônia”, com trechos narrados no livro o “Holocausto brasileiro”: “Assim, o local serviu para livrar a sociedade da ‘escória’, desfazendo-se dela, de preferência em local que a vista não pudesse alcançar”. Estima-se mais de 60 mil pessoas mortas pela soma de condições desumanas de fome, frio, abandono familiar, preconceito, sofrimento psíquico e tantas violências sofridas. Apenas por serem considerados inadequados à sociedade.

Nesse 25 de maio, os horrores tiveram definitivamente um fim. Os últimos 14 pacientes remanescentes do extinto hospital-colônia foram transferidos para um lar terapêutico no município.

“Quando estava fazendo o PNASH/Psiquiatria (Programa Nacional de Avaliação do Sistema Hospitalar – Versão Psiquiatria), visitei aqui e isso definiu minha carreira, com a missão de defender a luta antimanicomial. Que essas pessoas tenham um final de vida digno, é nosso dever defendê-los, reparar esse passado”, afirmou Lourdes Machado, presidente do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais, órgão destinado a dar voz à sociedade no controle das políticas públicas implementadas. Ela foi uma das pessoas que colocaram o cadeado no Pavilhão Antônio Carlos, lacrando de vez o Colônia.

“Colocar o cadeado, fechando definitivamente o Colônia, é um momento histórico para o país. A reparação histórica acontece quando o Estado e a sociedade reconhecem essas violações, preservam a memória e fortalecem práticas que garantam dignidade, inclusão e cidadania.

O fechamento ocorre após mais de um século de dor e 25 anos desde a Lei da Reforma Psiquiátrica, que redefiniu a saúde mental no Brasil. Ela substituiu o modelo hospitalocêntrico (focado em manicômios) por um cuidado em liberdade, buscando garantir direitos aos pacientes, determinando a internação como último recurso e instituindo a rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Marco histórico 

Inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena, voltado inicialmente ao tratamento de tuberculose, o espaço passou a ser conhecido, em 1911, como Hospital-Colônia, o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais. Ao longo do século XX, tornou-se símbolo de um modelo manicomial marcado por superlotação, abandono e violações de direitos. 

A história de Barbacena ganhou repercussão nacional a partir de registros jornalísticos, fotográficos e documentais que revelaram o que acontecia dentro dos muros da instituição. Hoje, parte dessa memória está preservada no Museu da Loucura, que registra um passado que não pode ser esquecido e jamais deve se repetir. (SES/MG)

“Reparação histórica é o reconhecimento de injustiças, violências e violações de direitos cometidas ao longo da história”, reafirmou Machado.

14 total views, 7 views today

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Accessibility