ENTREVISTA| Uso de Linguagem Inclusiva de Gênero no SUS produz informações paritárias entre homens e mulheres

1ª Diretora de Comunicação do CES-MG, Fernanda Coelho (Coletivo BIL), fala sobre a importância do uso dessa linguagem e como ela deve ser utilizada

por Débora Alves (Estagiária de Jornalismo/CES-MG)

Você já ouviu falar em Linguagem Inclusiva de Gênero? Esse é um termo bastante discutido nos últimos tempos, pois questiona a forma como as palavras, os textos, privilegiam apenas o masculino para comunicar, e até mesmo nos remete a um comportamento colonizador, herança histórica de nosso país, que tem como regra o apagamento da presença do feminino.

A linguagem, utilizada de forma limitada, pode ser um instrumento de descriminação e é de extrema importância que a informação produzida sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), em especial sobre o Controle Social, se adeque e apoie um movimento para uma linguagem mais representativa, livre de machismo, sexismo, desconstruindo a ideia de masculino como universal, dando visibilidade para as mulheres, abolindo a discriminação linguística e prezando pela paridade entre homens e mulheres.

Seguindo essas ideias, conversamos com a 1ª Diretora de Comunicação do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais (CES-MG) Fernanda Coelho, militante do Coletivo de Mulheres Bissexuais e Lésbicas de Ipatinga (Coletivo BIL) sobre a importância do uso dessa linguagem e como ela deve ser utilizada. Confira!

Fernanda Coelho (Coletivo BIL)

Como o comportamento colonizador e o machismo estão presentes na forma de nos comunicarmos?

Nosso idioma oficial é o idioma do colonizador, o padrão culto da norma do português brasileiro reflete em si a violência estruturante da cultura na qual foi criado. Um exemplo é uma sala com 99 trabalhadoras e apenas um trabalhador, cumprimentamos todas as pessoas com um “bom dia a todos”, uma aberração e mostra como o gênero dominante será sempre o masculino, colocando o feminino como subalterno, subordinado em relação ao masculino.

Como a violência está presente na fala?

A violência também está presente no conteúdo do que é dito. Temos uma representação da mulher como hierarquicamente inferior ao homem (sexo frágil), dependente dele (a mulher do fulano) ou objetificada (limitadas a atributos físicos ou sexuais). Isso é tão arraigado culturalmente que as próprias mulheres reproduzem esse discurso violento. Como exemplos temos as torcidas de times de futebol e seus famosos xingamentos machistas e LGBTfóbicos, como o uso de “Marias”, como se isso fosse um sinal de inferioridade. E ainda temos a “putofobia”, quando o alvo de nossa raiva era um homem e nos referimos como “aquele filho da p***”. Note como o xingamento não alcança o homem, vai até sua mãe, num misto de controle da sexualidade desta mulher. Definitivamente, a forma de nos comunicarmos também nos informa sobre a sociedade em que vivemos e naturaliza hierarquias de gênero que devemos questionar.

Qual a importância da Linguagem Inclusiva de Gênero no SUS?

É papel das instituições de saúde não reproduzirem preconceitos. O uso dessa linguagem rompe com um padrão que reforça o machismo ao tomar o masculino como padrão. Esses espaços são de acolhimento de usuárias e usuários dos serviços de saúde, mas também de trabalho de profissionais da área, o uso da linguagem inclusiva de gênero impacta tanto na humanização do acolhimento, quanto na humanização do próprio ambiente de trabalho.

Como podemos desconstruir a ideia do masculino como representante do feminino na linguagem?

Não deixando de nomear outros gêneros presentes. Nomeando o masculino quando se diz do masculino, o feminino para dizer das pessoas de gênero feminino e o neutro quando houver pessoas que reivindiquem para si o uso deste tipo de pronome.

Nos dê algumas dicas para uma linguagem inclusiva.

Começo com uma dica do que não fazer: não usem @ ou X na linguagem escrita. Aprendi com as companheiras com deficiência a questionar estes usos que acabam tornando as palavras impronunciáveis e impedem que programas que leem os documentos consigam pronunciar as palavras para quem é cega ou tem alguma deficiência visual. Por serem impronunciáveis também não resolvem o problema de questionar o masculino como padrão. O mesmo acontece quando usamos as/os ou as(os), em geral durante a leitura as pessoas tendem a escolher um dos gêneros e seguir a leitura. O ideal é não ter medo de nomear as palavras nos gêneros que se fizerem presente. Vale dizer que isso não torna o texto ou a fala repetitiva, porque é repetitivo dizer a mesma coisa duas vezes, e ao marcar os gêneros presentes estamos marcando gêneros diferentes.

E nos textos quando ficarmos em dúvida sobre o que usar?

Podemos substituir uma palavra que marque o gênero, por outras que não o façam: “Aquele que se alimenta bem tem melhor saúde” por “Quem se alimenta bem tem melhor saúde”. Substituir a palavra “homem” quando utilizada para se referir a pessoas de mais de um gênero por “pessoa”, “alguém”. O gênero neutro não é masculino, mas o é a ausência de definição de gênero na fala. Lembrando ainda que muitas pessoas não se identificam com o feminino e masculino e reivindicam para si pronomes e substantivos com gênero não binário, que podem ser escritos com uso de “e” e “u”, por exemplo “amigas, amigues e amigos” ou “elas, elus e eles”. A melhor dica é ter o cuidado de não reproduzir na comunicação o machismo que queremos romper na nossa sociedade.

Como dica para nos auxiliar nessa transição de linguagem, sugerimos a leitura do “Manual para o uso não sexista da linguagem: o que bem se diz bem se entende, elaborado em 2014, pela Secretaria de Políticas paras a Mulheres do Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Imagem retirada da capa do Manual produzido pela
Secretaria de Políticas paras a Mulheres do Rio Grande do Su
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